Serão os Portugueses um povo generoso?

Se olharmos rapidamente para o World Giving Index 2024, podemos ter a impressão de que Portugal não está entre os países mais generosos da Europa. A posição do país no ranking pode sugerir que os portugueses doam menos ou que o voluntariado ainda tem espaço para crescer. Mas será que esta é uma visão justa?

Na verdade, uma análise mais detalhada revela um cenário bem diferente. A generosidade dos portugueses pode não estar sempre visível nas estatísticas globais, mas manifesta-se de forma intensa no quotidiano. Um dado incontestável: 55% dos portugueses ajudaram um estranho no último ano – uma taxa superior à de várias nações economicamente mais desenvolvidas. Este dado não é um acaso. Ele reflete um traço profundamente enraizado na cultura portuguesa: a disposição para ajudar, o espírito comunitário e a forte rede de apoio social que une as pessoas em momentos de necessidade.

Além disso, os outros indicadores de solidariedade em Portugal têm crescido de forma constante e sustentável. Em 2023, apenas 13% da população doava regularmente. Já em 2024, esse número mais do que dobrou, chegando aos 30%. Esta evolução prova que a cultura da doação e do voluntariado está em expansão, consolidando-se como um valor essencial da sociedade portuguesa.

A generosidade portuguesa: para além dos números

A tradição solidária em Portugal vai muito além das estatísticas. O país tem acompanhado uma tendência global na qual empresas e indivíduos de alto património assumem um papel mais ativo na filantropia, através da criação de fundações e programas de responsabilidade social corporativa (Antoshyna & Bondarenko, 2020). As empresas portuguesas têm cada vez mais integrado práticas de doação e voluntariado nos seus modelos de atuação, promovendo o desenvolvimento socioeconómico e colmatando lacunas onde o financiamento público se mostra insuficiente.

No entanto, a força da solidariedade em Portugal não depende apenas do setor empresarial. A cultura da generosidade é sustentada por doações individuais e trabalho voluntário, dois pilares fundamentais da identidade coletiva do país. Estudos indicam que esta predisposição para ajudar o próximo está profundamente enraizada na sociedade portuguesa, sendo impulsionada por fatores como a tradição religiosa, os valores familiares e um forte senso de comunidade (SanPietro, 2014).

Mesmo entre aqueles com recursos financeiros limitados, há formas criativas de exercer a solidariedade. Modelos económicos familiares em diversos países europeus demonstram que a doação não precisa ser apenas monetária – doar tempo, competências e apoio emocional também são formas valiosas de generosidade (Sargeant & Woodliffe, 2007). Com o crescimento das organizações sem fins lucrativos e das iniciativas comunitárias, os portugueses têm encontrado novas oportunidades para se envolver ativamente, seja através de pequenas contribuições, seja dedicando o seu tempo a causas que consideram relevantes.

A nova face da generosidade em Portugal

A transformação digital e o aumento da consciencialização social têm sido grandes aliados na expansão da cultura da doação no país. As plataformas de doação online estão a facilitar os donativos, tornando-os mais ágeis e acessíveis. Campanhas de mobilização social e responsabilidade corporativa têm dado visibilidade a diversas causas, incentivando mais pessoas a contribuir de alguma forma.

O voluntariado corporativo também surge como um fator chave nesse contexto. Estima-se que as empresas que incentivam os seus colaboradores a participar em ações sociais conseguem gerar um impacto ainda maior na comunidade, promovendo uma cultura de generosidade no ambiente de trabalho e fora dele (de Abreu, Laureano, da Silva, & Dionísio, 2015).

Outro ponto relevante é o envolvimento dos jovens na filantropia. As novas gerações demonstram um interesse crescente por causas sociais e ambientais, e há um potencial significativo para estimular essa participação através de iniciativas educacionais. Projetos comunitários em escolas e universidades podem criar uma cultura de solidariedade desde cedo, garantindo que o espírito de ajuda mútua seja passado adiante.

O GivingTuesday Portugal e o papel da tecnologia na filantropia

Em meio a esse crescimento da cultura da doação, o GivingTuesday Portugal tem sido um agente fundamental para promover o envolvimento de pessoas, empresas e organizações sem fins lucrativos. Como parte de um movimento global, o GivingTuesday não se limita a doações monetárias, mas incentiva a solidariedade em todas as suas formas – seja através do voluntariado, da partilha de conhecimento ou de gestos simples de apoio comunitário.

A tecnologia tem permitido que mais pessoas participem do GivingTuesday e de outras iniciativas solidárias, tornando a generosidade uma prática acessível e presente no dia a dia. O crescimento das plataformas digitais de doação e a visibilidade das causas sociais nas redes sociais têm sido essenciais para essa transformação.

Portugal e o futuro da generosidade

Se há algo que os dados do World Giving Index 2024 nos mostram, é que a generosidade dos portugueses pode não estar sempre nas manchetes, mas está cada vez mais presente no dia a dia da população. Ajudar um estranho, doar tempo e recursos para uma causa ou participar de ações de voluntariado são reflexos de uma sociedade comunitária, solidária e comprometida com o bem-estar coletivo.

As dificuldades económicas não devem ser vistas como um entrave, mas sim como uma oportunidade para fortalecer os laços sociais e a empatia. Pequenos gestos fazem grandes diferenças. O desafio agora é continuar a estimular essa cultura, criando mecanismos que facilitem a participação de todos e ampliem o impacto das ações solidárias.

O futuro da generosidade em Portugal está nas nossas mãos. E você, já pensou no que pode fazer hoje para tornar o país ainda mais solidário?

Referências:

  • Antoshyna, L., & Bondarenko, I. (2020). Corporate Philanthropy and its Role in Social Development.
  • de Abreu, M. E., Laureano, R. M. S., da Silva, R. V., & Dionísio, P. (2015). Fatores que influenciam a prática de doações em Portugal.
  • Guo, C., & Peck, L. R. (2009). Giving and volunteering in the United States: An analysis of national survey data.
  • SanPietro, C. (2014). Charitable Giving and the Influence of Cultural Traditions.
  • Sargeant, A., & Woodliffe, L. (2007). Individual Giving Behavior: A Review and Model.
  • Scheepers, P. (2005). Determinants of Charitable Giving in Europe.
  • World Giving Index 2024 – Global Charitable Index. Disponível em: https://www.cafonline.org/about-us/publications/2024-world-giving-index

Ana Carolina Carrenho
Advogada
Especialista em organizações sem fins lucrativos e empreendedorismo social
Consultora em filantropia
Doutoranda em Direito e Economia

Ana Carolina Carrenho