Não Há Mudança Sem Ti

Como fazer a mudança através da generosidade? Doação de bens, trabalho voluntário, contribuições para uma causa maior? Talvez tudo isso. Mas talvez também algo mais simples.

Imaginem um mundo em que estamos um pouco mais atentos e disponíveis para o outro. Um mundo em que reparamos no vizinho que chega carregado com os sacos das compras e não consegue abrir a porta do prédio. Em que ouvimos a senhora idosa que mete conversa connosco no autocarro, porque já não tem muitas pessoas com quem falar e aproveita cada oportunidade para se sentir ligada aos outros.

Há gestos que mudam o mundo para melhor, mas raramente começam como gestos grandiosos. E um dos melhores exemplos que tive disso foi a D. Amélia.

O poder de um gesto simples

Conheci a D. Amélia há cerca de dez anos, através da AMP, uma associação que combate a solidão cada vez mais presente na população idosa. A colaboração era simples: visitas semanais para conversas e partilhas com quem tem toda uma vida para contar, mas poucos ouvidos disponíveis.

A D. Amélia morava na casa onde nasceu, num bairro antigo de Lisboa, onde ainda havia um forte sentido de comunidade. Durante os anos em que convivemos, fui testemunha de muitos gestos de generosidade (tanto dos vizinhos como dela), e de como as mais pequenas coisas podem ter um enorme impacto.

Sendo uma excelente conversadora, a D. Amélia partilhava episódios animados da sua história, receitas, e truques de costura para remendarmos vestimentas que seria uma pena deitar fora. Partilhas simples que nos enriqueciam tanto quanto as nossas visitas pareciam alegrar-lhe o dia.

As interrupções eram frequentes, fosse por telefonemas ou por vizinhos que lhe tocavam à porta a perguntar se estava tudo bem e se precisava de alguma coisa, ou que lhe tinham trazido mercearias por se terem lembrado dela.

A dinâmica era tão bonita — e tão simples — que me fez refletir sobre a atenção que eu própria dava às pessoas à minha volta, fizessem ou não parte da minha vida.

Pus a mão na consciência e comecei a mudar pequenas coisas. A integrar pequenos gestos no meu dia-a-dia. Percebi que, na sua essência, a generosidade é uma abertura: de tempo, de atenção, de disponibilidade, mais do que da carteira. E, como qualquer outro hábito, constrói-se com pequenas decisões diárias. Quanto mais a praticamos, mais natural se torna.

A Generosidade também se treina?

O treino da generosidade pode começar onde quisermos: na rua onde moramos, no trabalho, nos percursos apressados do dia. Eis algumas formas simples de começar:

  • Ouvir com presença. Um ouvido atento quando alguém precisa de desabafar é, muitas vezes, mais valioso do que qualquer conselho.

  • Oferecer um sorriso ou um elogio sincero. Pequenos gestos de reconhecimento podem mudar o dia de alguém pela positiva.

  • Contactar alguém com quem já não falamos há algum tempo. Quantas mensagens adiamos indefinidamente para pessoas de quem temos saudades?

  • Partilhar o que temos. Pode ser um contacto que ajuda alguém, uma dica, um talento, ou até um livro que nos marcou.

  • Cumprimentar. Um simples “bom dia” a quem se habituou a passar despercebido é, muitas vezes, uma ajuda para se sentir acolhido.

São gestos mínimos, quase invisíveis, mas que transformam o espaço entre as pessoas. E é quando muitos pequenos gestos se encontram que as mudanças maiores acontecem.

Tudo começa aqui

O GivingTuesday, por exemplo, é uma celebração global da generosidade – para nos relembrarmos que todos podemos dar, e de muitas formas. Que o valor das coisas não está no preço, mas no impacto que até os pequenos gestos têm na vida dos outros.

É a prova de que, quando o gesto individual se soma ao coletivo, a mudança deixa de ser apenas uma ideia e passa a ser uma realidade.

A grande verdade é que a generosidade não tem sempre o brilho das campanhas nem o peso das grandes causas. Às vezes, basta estarmos realmente presentes.

Talvez mudar o mundo pareça algo inalcançável. Mas o mundo (o nosso mundo) começa já aqui: no prédio onde moramos, nas ruas por onde passamos, no café onde cumprimentamos o empregado pelo nome.

Mudar o mundo não é uma ação distante. É uma série de gestos encadeados, que se multiplicam quando outros os observam e os repetem.

Partilhei a minha história com a D. Amélia por ser um de muitos exemplos de como a generosidade é contagiosa. E, cada vez que a praticamos, deixamos o mundo um pouco mais leve, mais vivo, mais humano.

No fundo, tudo começa aqui, connosco: num gesto simples, numa conversa, no tempo partilhado.

O mundo não se muda sozinho. Mas nunca é tarde para começar.

Marta Tomé
Gestora de Serviços de TI